OS DIAS RUINS DE ALGUÉM QUE JÁ FOI BOM Todos os dias, antes de acordar, quando estava num estado de semi-adormecimento, sentava na beirada da cama e passava a mão no rosto, sentindo um profundo abater de alma. Era como se um dia claro, como nos trigais pintados por Van Gogh, ficasse com a cor púrpura e cheirando a um enterro de gente idosa com os corações mutilados. Olhava pras micoses que cresciam entre os dedos dos meus pés e não procurava utilizar um antimicótico pra dar fim aos malditos fungos. Eu era um agente de saúde profundamente abalado em minha própria saúde, e nesse processo, sentia uma enorme sombra de culpa cobrindo o meu labirinto cerebral, onde idéias confusas brincavam de assassinar neurônios sadios. Ia até o banheiro e ficava um bom tempo observando um rosto pálido, jovem e cansado. Se tivesse alguma espinha em meu rosto, eu nunca a espremia, preferia que o tempo desse um fim a ela como ele fazia comigo. Tirava a cueca e puxava a porta do box do banheiro, introduzia somente o braço direito, esticado, abria a torneira e deixava a água cair e tomar a temperatura desejada. Quente. Um quente agradável como um útero materno, onde o feto, aconchegado por um cobertor de sangue e placenta, dorme chupando o dedão da mão esquerda. Pegava o sabonete e o retirava de sua embalagem e a atirava dentro do cesto de lixo, como um jogador de basquete ao acertar uma cesta de três pontos, fazendo a torcida soltar um gemido de prazer e alegria. Esfregava todas as partes do corpo, deixando-o ser tomado por uma espuma branca e de cheiro agradável. Enxaguava o corpo e depois desligava a torneira. Pegava a toalha em cima do box e me secava cuidadosamente. A cabeça parava de doer um pouco, depois do banho, e as olheiras diminuíam o inchaço roxo sob os olhos. Vestia uma cueca limpa, a calça, as meias, o tênis e a camiseta. Pegava a escova de dente e deitava sobre as cerdas uma camada generosa de pasta, depois, a conduzia até a extremidade da boca, na arcada enfileirada de dentes à espera de movimentos regulares e cadenciados. Acumulava uma grande quantidade de espuma na boca e cuspia tudo na pia branca. Jogava nova quantidade de água no rosto e penteava os cabelos, arando-os com a destreza de um lavrador de piolhos mortos. Conferia o material de trabalho: a pasta preta, as folhas de cadastramento de pacientes e usuários do sistema público de saúde, as canetas e lápis, sem esquecer de uma borracha e um caderninho onde estavam anotados todos os endereços para eventuais visitas. Abria a porta de casa e dava uma última olhada pra ver se tudo estava em ordem: portas e janelas trancadas, nenhuma torneira ligada ou o registro do botijão de gás aberto. Cadeava o portão e olhava para o grande fundo de vale que dava de encontro com a frente da minha casa, uma casa azul, com um pinheiro quase morto plantado dentro de um grande vaso verde. Olhava o sol e pensava na grande energia misteriosa que movia as pessoas e o mundo. Pensava no que poderia estar fazendo a minha pequena Helena numa hora daquelas. Pensava que ela poderia estar dormindo numa caminha de solteiro sob a égide da proteção dos anjos. Então, eu, que até pouco tempo não estava nem aí com os anjos, observava aquele imenso gigante de cor vermelho-alaranjado e sentia meus joelhos pesarem, como se neles, existissem uma força gravitacional extremamente voltada para baixo. Aquela força fazia com que eu me colocasse de joelhos em frente ao portão de casa, como se quisesse me rebaixar ao cargo mais subalterno existente no planeta Terra. Aquela força superior a meus esforços, me observava de cima da imensidão do céu, às vezes com compaixão, às vezes com indiferença. Mas depois que eu sentia meus joelhos soltos daquela força gravitacional, eu me levantava, enxugava bem os olhos e seguia ladeira a baixo, cujo caminho, seus raios iluminavam até o posto de saúde.
Escrito por Nelson Alexandre às 16h50
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