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Encruado - blog do Nelson Alexandre


O HOMEM QUE MURCHAVA

 

                                        “O homem é um idiota... mesmo seu pensamento é incoerente, porque não é             

                                                 reconciliado com seu sentimento”.

                                                                                                              

                                                                                                                     Jack Kerouac.

 

1. O Homem que Murchava

 

 

Ele já tinha passado dos trinta anos e, inevitavelmente, uma tempestade escura e longínqua vinha sempre em seus pensamentos quando esses números digitais do tempo cerceavam os raros instantes de prazer solitário que tinha.

Geralmente esses prazeres eram interrompidos às sete da manhã, no momento em que sua vida saía do estado onírico. Quando o despertador do celular fazia bip... bip... bip... dizendo para esse Homem que a vida não estava ganha e que era necessário levantar-se da cama e encarar, lá fora, o hospício que o mundo havia se tornado.

O Homem estava mudando. A vida estava mudando. E seus hábitos haviam mudado radicalmente. Antes de o Homem murchar, ele tinha um tremendo gosto pela leitura. Lia de tudo. Os cânones, autores não consagrados pela crítica literária, histórias em quadrinhos, bulas de remédio e até mesmo receitas de culinária.

Certo dia teve uma espécie de ojeriza às letras de qualquer que fosse o livro e decidiu que nunca mais leria coisa alguma. Mas é preciso salientar que não foi assim, de uma vez, que o Homem foi perdendo esse tipo saudável de hobby.

O Homem teve um choque muito forte, certa manhã, ao ler um bilhete de despedida de sua esposa e de nunca mais ter encontrado o corpo esguio e insinuante da mulher em parte alguma da cidade.

Ficou várias noites olhando as estrela e contando-as. Ele acreditava que se conseguisse contar todas as estrelas do céu sem repetir as que já havia contado, certamente, sua mulher voltaria. Pobre coitado. Nunca conseguiu concretizar ambos. Nunca soube realmente o que acontecera com a mulher.



Escrito por Nelson Alexandre às 15h23
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A partir daí foi que a leitura foi murchando até chegar ao momento atual. Foi por isso que a conta do telefone nunca mais foi paga. O mesmo acontecendo com a de luz, água e várias outras.

Os gerentes e chefes das principais companhias de fornecimento de energia é que tiveram de intervir pessoalmente para que as contas fossem descontadas diretamente do contracheque do Homem.

Assim, pode ter todos os benefícios religados e desfrutar novamente do conforto de poder tomar um banho quente e falar com algum amigo pelo telefone.

O Homem também começou a beber mais do que bebia habitualmente. E por várias vezes foi visto enchendo a cara em botecos sujos e mal falados da cidade. E não ficava apenas nisso. O Homem começou a fumar maconha, e isso o deixava muito preguiçoso e esfomeado.

Paradoxalmente, o Homem que Murchava começou adquirir uma forma física opulenta, além do fato de sua paciência diminuir rapidamente, como um cigarro queimando no cinzeiro.

Como não se interessava mais pelo o que os outros escreviam, começou a escrever e decidiu que a única coisa que leria seriam os seus próprios poemas e contos. Um dia escreveria um romance. Não tinha pressa.

O Homem sempre ostentou uma aparência jovial e era sempre bem “cortejado” pelas mulheres que encontrava por aí. Mas a partir do momento em que começou a murchar, sua aparência jovial deu lugar a um rosto cansado e que abrigava uma barba negra que permanecia em seu rosto por várias semanas e até meses. Depois a cortava e sua aparência destoava novamente um ar de jovialidade.

Um dia estava sentado num desses bares infectos e começou a escrever um poema:

 

O Fodedor de Moscas

 

Eu já fui um homem agradável,

E hoje estou aqui, transformado num inseto

Tentei de todas as formas sair desse estágio

Mas minhas asas foram cortadas

E meus olhos queimados por cigarros.

 

Enquanto eu me debatia e pedia socorro

Ouvia o riso hiênico das pessoas que passavam na rua

Com seus carros novos,

E não podia responder nada

Pois já não possuía mais

A minha boca.

 

Estava mudo

Queimado de sol e brasa

E acorrentado por várias luas

De covardia.

 

Hoje sou uma triste varejeira

Que fode pobres moscas menores,

Eu as mastigo e as engulo com cerveja

E cinzas de cigarro,

Minha garganta é uma boca dentada

Cheia de polissemias

E palavrões.

 

Voar pra longe desse lugar

 Já não posso,

O que me resta

É circular essa lâmpada maldita

Que me prende a uma luz

Artificial

                    Como é a vida.

 

Jamais seria publicado, ficou ali pensando. Remoendo certos pensamentos, como se eles fossem rocamboles com um recheio rançoso, indigesto a certa hora da manhã. Aquilo era foco de uma insatisfação sem endereço certo. Um lamento ao vento que passa por debaixo da árvore da noite. Sua poesia suja era sinônimo de um desdém que veio de uma placenta esquecida na boca dos cães.

Mas o Homem que Murchava não podia mais ficar assim tão murcho. Tão metamorfoseado em uma bexiga ressequida de sol há séculos, esvaziada de ar, de vida, de essências que levam a um estágio onde nos encontramos com um rei de boas maneiras, dançante, alucinado como a repentina chegada da luz da consciência em um neurônio morto.

Foi quando ela penetrou a intimidade daquela birosca insólita.



Escrito por Nelson Alexandre às 15h18
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O homem que murchava, enfim, levantou a cabeça para olhar algo que não fosse a ponta dos dedos queimados ou um copo de cerveja pela metade, esquentando e ficando choca por culpa do tempo e do sentimento de buraco negro dentro do peito.

Ele levantou os olhos e viu uma mulher fisicamente bem diferente daquela que ele havia perdido em algum lugar do norte do Paraná.

Aquela mulher era como algo que havia entrevado uma coluna vertebral esfacelada em mil vértebras com ventosas. Vértebras que sugavam uma energia obscura em dias obscuros, junto à vislumbramentos de idealizações inerentes a acontecimentos reais.

Ela era uma encruzilhada que ele teria que passar. Ela era um instrumento cortante no caminho dele, uma faca de dois gumes talhando sua carne como se fosse um patê de fígado mole e rançoso. Fatal e destruidora. Coisa mandada num envelope cheio de antrax.

O nome da diaba era “Serena”. O nome tinha uma ligação irônica com a personalidade daquela mulher, pois a única serenidade que essa mulher teria, seria na hora em que desencarnasse desse plano e fosse literalmente para as profundezas do inferno.

Acho que estou acelerando um pouco esse fato da vida do Homem que Murchava, mas afinal, às vezes, eu também enfio os pés pelas mãos. Quem é que nunca fez uma cagadinha na vida?

Você deve estar curioso para saber quem eu sou e também quem é esse misterioso homem que, um dia, simplesmente acabou murchando, não é?

 Eu não vou dizer o meu nome, mas você pode me chamar, como gostam de dizer por aí, principalmente em bilhetes anônimos, de... “um amigo”.

Essa história teve sua gênese num dia muito especial para o Homem que Murchava, era um domingo, num final de tarde em que o Grêmio Maringá havia vencido a segunda divisão do campeonato paranaense e, naquele dia, o Homem que Murchava não estava com a bola murcha, mas sim, com a cara cheia de chuva e cerveja que bebia nuns copões de plástico, ouvindo os gritos da torcida, antes de ser observado de rabo de olho por uma coisa rastejante. Digo rastejante, porque aquela mulher era uma longa serpente de quase mil quilômetros de comprimento, com uma tremenda habilidade em esgueirar-se pelas sendas da premeditação.

Olhar de serpente predadora no corpo daquele que será a presa.

Se ele tivesse meios de um dia entrar numa máquina do tempo, e pudesse voltar algumas horas antes daquele exato dia, hora e minuto em que colidiu com aquela mulher, com certeza, ele, que não era lá tão mal assim, ficaria esperando que ela se diluísse com o vento, como palavras que são ditas sem registro algum de qualquer que fosse o dialeto ou língua, e que somente ecoam por um instante falado, ela jamais existiria, a maldita. Ela seria como essas palavras levadas pelo vento, que nunca teriam a chance de argumentar que existiram de verdade um dia.

Ela cruzou as pernas e olhou para o Homem. O Homem que Murchava. E com isso, aquele momento simbolizou uma explosão de reveses que inevitavelmente atingiriam todas as camadas e estruturas emocionais do Homem.

Algumas mulheres são como cedros. São duras. Resistentes. Elas realmente fizeram o mito do sexo frágil ir por água abaixo. E não foi só por nossa culpa. Elas também tendem à corrupção e pequenos conchavos, isso é que é o mais triste, pois esse é o momento em que as boas mulheres pagam o preço da desconfiança dos homens, por causa da ação corrompida das vagabundas, digo isso, arriscando ser chamado de preconceituoso e de receber outros rótulos mais pesados do que esse, pois do fundo do coração, não tenho outro adjetivo para me referir a mulher que se chamava “Serena”, senão esse.

Se somos fracos na fraqueza, isso é um fato. Eu não vibro com ele.  Com esse sentimento menor que nos invade por completo, apenas lamento.

E foi assim, depois de uma dobrada de pernas, que o Homem não conseguiu desviar o seu olhar.

E hoje, lamento por ele. Mas na hora em que ela cruzou as pernas, todos naquele bar queriam mandar o pau e todos os desejos mais sacanas para dentro daquela vagina rosada.

O Homem que Murchava, apenas ficava absorto em admirá-la de uma distância discreta, sem se preocupar se ia ou não conseguir ficar com ela, ele estava pensando em outras coisas, não porque não gostasse de ficar olhando aquelas pernas brancas de fora, mas é que algo maior ocupava o seu pensamento naquele momento, ali, sentado naquela mesa de bar.

Um sentimento que parecia ter um laço de corda forte amarrado no pescoço. Um sentimento morto que o fazia ficar balançando, enforcado, com os olhos esbugalhados e a língua pendendo do lado direto da boca, como um Judas fora de moda e de estação.

 

 

2. Uma diaba dançando blues

 

O Homem que Murchava, quando criança, já tinha se aventurado pelo lado subjetivo da poesia. O pai era motorista de ônibus e vivia lendo Westers de bolso. Literatura “B” que os estudiosos dos cânones deletam de suas teses de doutorado, mas que no conceito do motorista das linhas de ônibus locais, era o melhor entretenimento que se poderia ter e, por isso, os lia aos quilos.

Acho que é por isso que a poesia do Homem que Murchava, tinha um tom solitário, o tom do atirador que fica sempre na espreita levantando e abaixando a aba do chapéu, esperando o melhor momento para se defender de algum inimigo perigoso.

Mas a mulher que faria com que o Homem realmente se extinguisse, era semelhante, apenas, em relação à cor da pele da mulher para quem o Homem que Murchava primeiramente leu seus pequenos poemas.

Em meados dos anos de 1985 ou 1986, o Homem ainda era um menino, mas isso não excluía o processo lento de murchar, que sempre esteve acoplado a ele desde o nascimento, afinal, o parto já tinha sido de grande risco, sendo que o Homem fora retirado à fórceps no pior hospital da cidade.

Dizem que para aquele matadouro iam somente aqueles que não tinham grana para pagar um leito decente e com alguma característica de humanidade e senso ético.



Escrito por Nelson Alexandre às 15h17
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Então foi nesse tipo de atmosfera que veio à luz do mundo o Homem que Murchava.

Ele já nasceu morto desde o início.

Mas a senhora Henriqueta, filha de espanhóis, com seus cinqüenta e tantos anos ficava ouvindo o poetinha declamar seus espontâneos textos que rasgavam o útero da poesia tradicional. Era Primitiva. Grosseira e doce no mesmo corpo textual. Ela dançava em largas e sonoras estrofes livres, na frente da velha, que suspirava, pois se sentia privilegiada em ser a primeira ouvinte do pequeno ser que ficava ali, à frente dos olhos dela, lendo  majestosamente sem se preocupar se havia ou não palavrões naquela coisa toda. Naquela época não havia nenhum:

 

...é doce, minha querida

a pérola acendida no fundo do rio

ele é barrento e não deixa a luz iluminar

suas águas

é por isso que minha poesia é escura

pois ela não tem como se clarear

já que o fundo desse rio

é a minha triste noiva

que nunca vai me largar.

 

“É muito triste, essa eu não gostei. Eu gosto daquelas outras que você fala sobre o amor. Fala do amor pra mim Ne...”

O poetinha desferiu violentamente uma balaustrada na interferência da velha.

“Eu não vou mais falar sobre o amor.”

Ela ficou estática olhando para cara dele.

“Qual é o motivo?”

“O mais simples de todos...”

“Qual?”

“O motivo da sua própria inexistência.”

Virou as costas para a velha e saiu caminhando de cabeça baixa, dando por encerrado o seu primeiro sarau e, que também, se transformou no último. A velha, que já não bebia mais como antes, não teve alternativa, a não ser, ir até o pequeno bar de sua sala e servir-se de um boa dose de Grant’s, que fora acompanhado por duas pedras de gelo.

Dizem que naquela tarde ela chorou todas as coisas guardadas dentro daquele coração murcho e velho. E o pior era que ela havia prometido nunca mais chorar por homem algum, dessa vez, sua dor e seu choro eram resultados de umas poucas palavras pronunciadas por um menino de estrutura óssea frágil e de língua afiada.

Por Deus, foi ali que o Homem realmente quis começar a murchar. Não havia compaixão no mundo dos negócios e tão pouco no mundo do amor...

“Posso me sentar aqui?”

Ele levantou a cabeça e lá estava ela, aquela diaba que parecia querer dançar um blues. Nem respondeu direito. Mas ele já estava sem mulher a mais de um ano e isso foi um fator preponderante para a falência total desse Homem.

A buceta é o portal mandibular do inferno masculino. É a clarabóia da luz que cega. Carrossel de mil e uma aventuras no meio dos jardins do tesão.

“Claro.”

E naquele final de tarde, em que seu time conseguira acesso novamente na primeira divisão do campeonato do seu estado de nascença, ele bebeu algumas cervejas que não tenho certeza se quem pagou a maior parte foi ele ou se foi ela, mas o importante é que, mesmo com a insistência de um amigo do Homem que Murchava em “roubar” a diaba dele, ela não se comoveu com a sedução e apelos do tal amigo e preferiu ficar com o Homem, que não se fez de rogado, percebendo que era desejado por ela.

Percebido isso, foi que o Homem fez o convite para que entrasse no carro que pertencia a sua mãe e, como viajantes que partem para terras desconhecidas, onde animais selvagens correm o risco de nunca mais presenciarem a luz do sol novamente, ela entrou no carro e partiu  junto ao Homem, algumas quadras abaixo.

Carro parado e mãos ligeirante entorno do corpo dela. Ela não deixava as mãos ultrapassarem os limites do sinal vermelho. Mas o Homem não beijava uma mulher já fazia um bom tempo. Seu pau era um Sputnik ereto, com a base do foguete toda intumescida da secreção da vida.

Aquele blues ainda não rolaria ali, no meio da rua, num domingo à noite, onde todos os católicos voltavam da missa com seus pecados perdoados. Com o fardo pesado da consciência leve como algodão alvo, parecido com uma nuvem formando uma auréola de bondade na imensidão azulada do céu.

Sem dúvida, a diaba ainda não tinha mostrado seus verdadeiros predicados de bluseira do inferno. Ela não tinha mostrado os enormes e rosados seios que, a mesma haveria de segurar e mostrar para o Homem e o resto do planeta Terra.

Aquela era uma peitaria que derrubaria a última fronteira entre o luto celibatário do Homem, e a esperança de reatar com a mulher que fora embora da vida dele.

Onde estava a poesia?

Ele se perguntava mentalmente, enquanto o que mais queria era penetrar aquela bucetinha que já rebolava na mão direita do Homem que estava cego, louco e cheio de um tesão guardado dentro de um sarcófago de repressão.

“Meta o cacete, filho!” dizia uma voz interna que, sem dúvida, não era a voz de uma das fontes de inspiração do Monte Parnaso. Aquilo era a voz do instinto biológico dos seres humanos reivindicando aquilo que muitos cidadãos acreditam que seja apenas uma escolha ideológica. Mas não era. Era carne, e não uma contemplação mediúnica ou nirvanas simbolistas zanzando entorno de um beijo molhado ou uma chupada no pescoço.

Carne! Carne! Carne!

Esse era o hino de um exército de soldado único, sem pátria certa para lutar e defender. A única coisa certa no momento era sua baioneta em riste, um palmo abaixo do umbigo, querendo desesperadamente romper os portais do prazer que uma mulher pode proporcionar a um homem. Até mesmo para o Homem que Murchava.

Mas a diaba tinha seu poder de autocontrole e, por isso, não quis colocar a boca na gaita do Homem e puxar um blues que satisfizesse os dois naquele momento claustrofóbico e suado dentro do carro.

Ela preferiu descer e sair rebolando em direção ao pequeno apartamento que dividia com mais duas colegas e deixou o Homem de pau duro e sem saber direito o que fazer com aproximadamente quinhentos dias de celibato não-obrigatório.

Depois que ligou o carro e sua taxa de testosterona desceu as serras da libido, a razão botou a cara para fora do bueiro e o vento agradável da noite foi batendo em seu rosto e resfriando o abrasamento visível que o incendiava



Escrito por Nelson Alexandre às 15h17
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 3. A tragédia pósmoderna aliada à falta de grana e choros de criança

 

Sempre chega um dia em que o cascudo precisa entrar na “loca”. Sempre há o dia em que o homem precisa exercer sua função como homem. Machismo? Que nada. Eu prefiro pensar que é outra imposição do mundo biológico, e justamente do lado que é considerado “frágil” é que essas opiniões pesam como uma tonelada de gelo em uma estrutura fálica em combustão. Experimente, um dia, não cumprir com as obrigações da cópula quando uma fêmea estiver em estado total de libido. Ouse não ter uma ereção nessa hora, que você logo verá a tal famigerada estrutura “frágil” do mundo feminino. Ela se transforma em escárnio e gozação.

Não demorou muito para aqueles seios rosados daquela diabinha estarem na boca ávida do Homem que Murchava. Ela insistia em dizer que não o havia levado a seu apartamento para “aquilo”, mas era justamente “aquilo” que a impulsionava para segurar o par de seios e mostrá-los ao Homem como se fossem dois troféus numa disputa sangrenta. Quero dizer que ela tinha a faca e o queijo nas mãos.

Foram noites boas e ruins ao mesmo tempo, pois o homem não conseguia desvincular da memória, principalmente quando estava na cama com aquela diabinha, a imagem da mulher que o havia deixado e que parecia ter se transformado num dos “Seres Gasosos dos pantanais de Canópos”, personagens secundárias do romance Agora É Que São Elas, do poeta e romancista Paulo Leminski.

O Homem havia falhado muitas vezes antes de introduzir seu pendão de desesperança no interior da flor carnívora da diaba. Tudo por culpa do amor. E a pior coisa que ele poderia ter feito, foi feito, o Homem, desesperado por achar que estava impotente, numa das primeiras vezes em que a diaba se insinuava e o mesmo não conseguia ter uma ereção, pediu a Deus com toda a sua fé, que seu órgão de reprodução e prazer não o deixasse na mão naquele momento. E como Deus sempre atende o pedido daqueles que pedem com fé e humildade, o membro do Homem ficou rijo como titânio, feito isso,  mandou ver na diaba até que ela ficasse esfolada.

Depois disso, ficaram algumas semanas sem se ver, apenas telefonemas e e-mails. O Homem estava contente e triste. Sempre com as emoções balançando num pêndulo de certezas e incertezas. Pobre planta rasteira murchando ao sol do Atacama. Alma solitária à sombra de si mesma em dias de luz e de trevas.

Certo dia a diaba telefonou dizendo que queria conversar com o Homem. O Homem que Murchava. Sentou-se como da primeira vez em que vira o Homem, cruzando as pernas brancas, mostrando a aba da calcinha, também branca como as nuvens de algum paraíso imaculado.

Foi direta e objetiva. Menstruação atrasada algumas semanas. O Homem quis sair pela porta do apartamento, mas ela não deixou. O Homem quis pular pela janela, mas ela não deixou. Ela, a diaba, agora não vivia mais nos subterrâneos incendiários do inferno. Ela, agora, era rainha dos reinos de Netuno.

“Te fisguei, meu peixão!”

Foi exatamente assim que a diaba, já metamorfoseada em sereia devoradora de marujos náufragos, disse nas fuças do Homem que Murchava, que ele não passava de um dourado preso numa linha de explorações eternas.

“Meu amor das águas profundas”

A vida do Homem começou a murchar com mais intensidade. Um dia, parado em frente ao espelho, notou que seus olhos estavam mais negros do que antes e que suas retinas haviam desaparecido. Ele tinha os olhos mortos e frios de um tubarão que havia sido arpoado no seco. Foi Pendurado, destrinchado e vendido em postas nos mercados mais vagabundos da sua cidade de porte médio no interior do Paraná.

Os telefonemas, agora, eram sempre em tom de ameaça e chantagem, emocionais, passionais, financeiras e psicológicas. A maldita era uma pirangueira de primeira e vivia querendo mais iscas para fisgar mais e mais peixões que via de regra, estavam em extinção nos pobres rios poluídos do estado.

O tempo passava, a barriga crescia, como também o nome de peixões no monitor riscado do celular da sereia devoradora: Wagner, Paulinho, “Motorista de Táxi” e etc. afinal, ele pensava, sempre com o cérebro inserido em alguma tragédia idiossincrática que o aprisionava mais e mais numa tarrafa confeccionada por um jangadeiro que parte em direção ao Hades e cobra o dobro pela travessia.

O Homem ficou deprimido, mais do que naturalmente já o era. Perdeu vários empregos e subempregos que ia conseguindo, até chegar ao ponto de voltar a depender da ajuda financeira dos pais. Estava fodido e mal pago. E nada da sereia devoradora abrir mão de qualquer coisa que fosse. Sempre metia o dedo na cara do Homem, dizendo sobre “os meus direitos!”, “os meus direitos!”

Ela nunca se indagou sobre o direito de foder com a vida do Homem que Murchava por puro egoísmo e interesse financeiro. Coisa que caiu na real quando descobriu que o Homem não passava de um falido, aí direcionou os olhos para os poucos bens dos pais do Homem que Murchava. Quando uma mulher toma a decisão pelos dois, como foi o caso da pirangueira, ela bipolariza o mundo com testosterona e estrógeno. Química letal para a parte que não foi consultada.

As ligações agora eram para a mãe e o pai do Homem que voltara a ser um adolescente por pura pressão e necessidade. Levava esporros tanto de um lado, como do outro. Pobre planta rasteira pisoteada pelo gado e pelo destino.

 

4. A poesia morreu aos pés de Platão e um mais uma são dois

 

Lixo. Luxo. Lux Luxo. Pirambóia. Aquiles. Qualquer coisa. Pane. Parece estranho? Só parece, pois era exatamente assim que estava a cabeça do Homem que Murchava. Computador desformatado aos pés de um destino de Polis negada. Platão estava em pé olhando para o Homem. O Homem que Murchava. Apontava o dedo na direção das galerias de esgoto. Renegou a poesia suja e sem métrica do Homem. E tudo isso na cabeça do Homem era como em um sonho em que ele dirigia um Mustang  novinho de cor vermelha nas rodovias pedagiadas do interior paranaense. Tinha a seu lado uma mulher



Escrito por Nelson Alexandre às 15h16
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mulher de aparência espetacular que usava um longo vestido negro com pequenas bolinhas brancas, um chapéu feito de palha de coqueiro de Arembepe - Bahia, e no rosto fino, que mais parecia com o de uma bonequinha de porcelana feita pelas mãos do mestre Valdivino, destacava-se um enorme par de óculos escuros que ocultava os olhos miúdos daquela beldade de longos cabelos ruivos que o acompanhava. Aquela era a mulher que o Homem perdera. Aquela mulher transformou-se em partículas de nada em meio ao problema concreto do Homem.

“Acorda pra vida!”

Informação ou esporro, se assim vocês que estão lendo essa lenda do Homem que Murchava preferirem encarar, entreva por um dos ouvidos desse Homem e saia pelo outro. Quero dizer que as palavras, nesse momento, estavam apenas de passagem pelo sistema cerebral do Homem.

“Platão não quer a minha poesia...”

“Quê!?”

“/peixe morto/ mares sem sal/aonde vais minha esperança? /sem porto e sem nau?”

“Você é um vagabundo, está ouvindo? Um vagabundo!!!”

O Homem já não estava mais dentro do complexo onírico de um sonho brando, estava desesperadamente no centro de um pesadelo real, dirigindo um velho Passat preto modelo 1984, junto com uma pirangueira pescadora de barbados descerebrado que nadam sem destino pelos rios Pirapó e Ivaí.

“Se eu sou um vagabundo, que diabos é você?”

Foi uma das únicas vezes que o Homem revidou.

A pirangueira apontava para a barriga e argumentava que em vez de um filho, ela esperava dois filhos do Homem que já não tinha mais seiva para secar. Murcho. Dissecado pelas circunstâncias de um jogo de azar e sorte que intitulam como vida. Lá estavam, os quatro, dois já respirando o ar poluído e desalmado de um mundo pronto para virar escombros, e dois seres que ainda não tinham colocado as caras pro mundo, mas com certeza, deviam estar ouvindo tudo que se passava lá, fora da proteção da vida uterina. Por um instante, o Homem já não tinha mais o que fazer a não ser, aceitar passivamente aquela situação em que se encontrava. Pensava... estava entre a cruz e a espada e, junto a isso, em seus ombros pesava uma enorme culpa por não sentir felicidade alguma em ser pai de gêmeos, pensava, apenas, que colocar alguém num mundo tão competitivo, tão barbaramente cordial e dissimulado, era necessário, no mínimo, um partícula, mínima que fosse, de amor, mais isso o Homem já não sentia mais. Seu coração era de doce de abóbora, sem açúcar, estragado, pronto para ser jogado no lixo para ser recolhido pelo caminhão de limpeza pública e ser arremessado num outro montante de coisas descartáveis e inúteis produzidos pelo consumo humano.

“Vagabundo!”

O Homem não compareceu ao parto. E a pirangueira invocou mais de mil pragas do Egito para o Homem que já estava totalmente liquidado. Prometeu que o colocaria na justiça. De que jamais veria as próprias crias, e que só desejaria o mal por toda a maldita existência do Homem. A mulher que acompanhava a pirangueira no mesmo quarto, e que tinha uma das pernas quebradas decorrente de um atropelamento, ficou horrorizada com as expressões faciais da pirangueira. Ela confessou para uma das enfermeiras de plantão, que a mulher, certa hora da noite, parecia flutuar no ar como se fosse uma bruxa insuflada pelo ódio e pelo escárnio.

Eram uma menina e um menino. Diana e Apolo. Píton era a própria mãe. O Homem, não passava de um Henry Chinaski mendigando uma cerveja aqui e acolá. Ouvindo o blues do inferno. Mastigando estanho quente e lendo literatura classe B. Acho que esta história não pode ser descrita como uma tragédia, ou mesmo como uma comédia. Farsa? Sei lá. Eu só sei que talvez, eu, como narrador desse pequeno fragmento que, junto a tantos outros que acontecem a todo instante nessa coisa estranha que chamamos de vida, fiquei impassível e não sei como classificar esse Homem. O Homem que Murchava. Nunca quis fazer exame de DNA, talvez por incapacidade financeira. Por pura desilusão. Ou por uma compaixão misturada com uma grande depressão que o comia vivo. Pedaço por pedaço. Todos os dias de sua vida.

Mas pensando bem, eu, que nunca tive mulheres como aquele Homem, sinto certa inveja de seu... Ah... microcosmo desesperado. Daquele tom de morte em vida, mas que é real. Eu nunca tive nada que me levasse ao desespero, ao caos. Minha vida é como sopa rala de hospital. É como o moribundo observando tudo e não morre. Sempre foi vazia. Nunca me casei. E nunca me amaram. Sou apenas um velho que mora sozinho numa casa velha e sem graça. Eu sei que ele não está feliz. Que sua vida é um parque de diversões de luzes apagadas dentro de uma montanha russa em alta velocidade. Mas juro para você, que chegou até aqui, lendo essa história não-singular, que sinto inveja desse Homem. Pelo menos ele sentiu a intensidade do amor. Pelo menos uma vez na vida. Quando era uma grande planta do Pântano. Invejado por todas as espécies não catalogadas pela botânica. Austero sob a luz do sol do meio-dia, com insetos sobrevoando em sua volta, como guardiões da beleza em meio ao lodo.

Daqui da minha janela. Da minha casinha. Do meu buraquinho escondido. Fico olhando seu desempenho. Saindo de mãos dadas com as crianças toda manhã. Ele as trata bem. Mesmo murcho. Mesmo seco de esperança e buscando aquilo que nunca mais irá recuperar. Eu o invejo. Sua desgraça me fez refletir e me tornou bom. Ironicamente me fez acreditar novamente na humanidade. Pois eu juro que desejaria ser seu Sancho Pança. Seu fiel escudeiro em busca da verdade e da justiça. Sempre a seu lado. Queria sair em busca daquilo que aquele Homem perdeu e que eu mesmo nunca tive. Juro por Deus.



Escrito por Nelson Alexandre às 15h15
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Escrito por Nelson Alexandre às 19h16
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A mão sob a sombra

 

 

A felicidade tem pernas de barata

São seis, não é?

A felicidade não é como um aracnídeo

Ela é pestilenta como uma cobra

E tão insinuante como uma striper

Que não come zumbis.

 

Uma dança é uma dança

Mas a felicidade quer mais

Quer tudo que você tem nos bolsos

Assim,

Num assalto relâmpago,

E você,

Sobressaltado com o espanto

De um embuste sacana,

Só pode dizer:

“Leva tudo, baby!”

 

Há mulheres que gostam de pijamas

Com ursinhos desenhados neles

Há outras que preferem abater

Ursos com uma carabina imaginária.

Sou do tipo de urso que sempre é abatido

E tem sua pele

Exposta em alguma feirinha

De vila.

 

Poemas são minhas balas

São minhas coisas fora do lugar

São minhas idéias

Que moram dentro de uma garrafa

De Antarctica e jamais querem ir pra casa

Lá pelas 11 da noite.

São como um filme que ninguém

Vai assistir.

Um telefone que jamais alguém irá ligar.

 

Há outros telefones

Há outros filmes

Só o amor é o mesmo

Chocolate meio amargo

Que derrete na boca da gente.

 

De tudo um pouco

Louco médico torcedor

Poeta contista androceu

 

Mas de tudo que se escuta ou faz

O pior da felicidade

É o doce vagar momentâneo de sua despedida

Como um felino se deslocando por telhados alheios

E salta da escuridão ao nada

Como se nunca tivesse olhado para trás

Ou pra frente.

 

Felicidade

Foi embora...

Musiquinha de ficar batendo o dedo

Em caixa de fósforos.

 



Escrito por Nelson Alexandre às 19h13
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DISFUNÇÃO PASSAGEIRA DE UM SUJEITO QUE NÃO SABE SE QUER MATAR OU MORRER

 

                                                  Essa gente tem a mania de misturar a vulgaridade da                            comida com a magia das emoções... São como porcos, que engolem tudo. Não podem parar nunca. Comem, ao mesmo tempo, a rosa e o esterco que rodeia a roseira...

                                                                        

                                                                                                                     Louis Ferdinand Céline.

                                                                                          

Muitas coisas podem arrebentar com o coração de um homem.

Mas o que fazer a respeito de um homem que tem coração, mas não consegue amar. Que só tem a sensação de estar com os pés no vazio. Num estado onde todas as emoções estão vivas, interligadas, e ao mesmo tempo, elas não se mexem. Parecem todas robotizadas. Travando qualquer movimento que seja voluntário.

Nasci com um nome, mas não vou dizer qual é. Tenho vinte e dois anos e não estou próximo de ser algo relevante para a sociedade ou para qualquer pessoa. Estou próximo de uma grande avalanche de acontecimentos que podem marcar a minha vida.

Desde criança só conheci a rua como porta de entrada e saída para minhas investidas na vida. A vida, aliás, que desde sempre só havia me pregado peças e mais peças, e eu, caindo em todas as armadilhas como um verdadeiro imbecil.

Às vezes o coração tem culpa por sermos mesquinhos ou otários.

Eu tinha veneno nas veias. Sabia que tinha um talento fervilhando dentro de mim, sendo apurado, esperando a hora certa de vir ao mundo, amadurecido, pronto para colocar para fora do corpo, tudo o que eu vinha acumulando com as experiências boas e ruins. Eu queria derreter o paredão de gelo que está aprisionando o coração da humanidade. Eu queria lutar desesperadamente contra a idéia de que somos uma experiência que não deu certo. De que o irmão é capaz de levantar a mão com uma faca e tirar a vida do próximo. Eu queria negar isso, fazendo de mim uma cobaia para testar a compreensão e sabedoria das pessoas comuns.

Me estrepei.

Eu não tinha pretensão de me canonizar, de que as pessoas me vissem à altura de um Santo; eu tinha, justamente, a idéia contrária.

Eu tinha fé de que era exatamente quebrando a hierarquia celeste que chegaríamos lá

Um delírio.

Foi num delírio que Deus falou comigo. Dizia que eu precisava ter paciência, que não é num só dia que se faz uma ponte que liga uma margem de estranhamento à outra de conhecimento. É necessário calcular, planejar, deixar que as coisas se encaixem na proporção em que vão acontecendo. Como num fluxo de pensamento onde a bondade faz desaparecer a água estagnada do lago gelado do coração humano.

Eu havia renunciado à muita coisa que me veio de mão beijada durante esse período, por me encontrar numa enorme cegueira. Eu tinha olhos, mas não via. Tinha vontade, mas me abatia. Em síntese, era como uma planta morta que implorava água, e quando era regada, renunciava ajuda, gritando para que todos fossem para o inferno.

Eu havia desesperadamente lutado para me tornar um escritor, mas já não via muito sentido nisso. Nessa mistura ainda apurando dentro das minhas veias.

Havia dias em que eu colocava a mão sobre o papel e ficava lá, por horas, sem que nada saísse da minha cabeça. Uma vogal que fosse. Uma partícula de mentira ou verdade para me resgatar do meu caos particular.

Para mim, tudo era negro e desesperado. Eu era um palhaço sem graça que fazia  as criancinhas chorarem ao invés de fazê-las sorrirem até que arrebentassem a pança cheia de vermes. Nada mais do que um palhaço dentro do seu próprio circo de horrores, maquiando um rosto triste, penteando a face com uma navalha.

Aprendi que o mundo, a vida, nos coloca numa roda-gigante que podemos escolher se queremos ficar embaixo.

                                 ou

                                 em cima.

                               

 O segredo está em querer ser GRANDE ou pequeno.

Depois dessa escolha, o negócio é agarrar-se a essa idéia com dentes e unhas. Desejar e colocar em prática esse desejo que quer se libertar de correntes e cadeados.  É  preciso, ainda, extrair desse desejo todo o sumo que nele existe, cuspindo toda a sobra, todo o resíduo que insiste em querer retardar esse processo mágico.

Você fica na distinta problemática de querer matar ou morrer.

Essa é uma disfunção em que sinto liberdade, a verdadeira liberdade que tanto eu buscava com fúria, com amor, com determinação, e que para minha surpresa estava tão perto e eu não a enxergava, porque haviam arrancado os meus dois olhos com uma faca, e eu vagava como um sonâmbulo lunático pronto para cair dentro de uma sepultura sem inscrição na lápide, apenas a terra úmida e os vermes para me devorarem pedaço por pedaço.

É a época das primeiras descobertas.

A perda do cabaço.

De um louco cego lutando sozinho na “quebrada”.



Escrito por Nelson Alexandre às 18h12
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Escrito por Nelson Alexandre às 10h18
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PRIMEIRO AMOR

 

Era branquinha e gostava de mim. Era comprida e lembrava Olívia Palito. Não havia nenhum Brutus e eu não era o Popeye. A 4ª série foi algo como um movimento de jogo de xadrez. Peças que se deslocam num universo particular que pulam estrelas e contam carneiros desossados. O mundo pertence às criancinhas?

Primeiro amor. Primeiro fracasso. Inserção no mundo dos cupidos desvalidos. Sol de muletas em dias nublados. Poesia em si. Beijos molhados na face. Boca proibida.

_ Tá escrevendo sobre o que?

Alguém havia me notado. Milagre.

_Hein?

_Escrevendo... Sobre o que?

_Poesia.

_Legal...

Muriel Spark. Descendente do povo Eslavo. Oriunda de Prudentópolis. Caída de pára-quedas em Maringá. No colo de Arnaldo Batista? Movimentava-se pra lá e pra cá. Flor pendendo no vendaval da minha paixão. Da minha poesia com erros gramaticais e acidentes de construção. Todos nos invejavam. Casal perfeito. Lua nova. Eclipse de paixão.

_Um dia ainda vou ser modelo.

_Não duvido.

_Jura?

_Quero morrer durinho.

Certo dia, a Professora Ruth foi vistoriar os cadernos. Tarefas não feitas. Os alunos levavam uns petelecos quando não resolviam pequenos exercícios de gramática. Porque ninguém fazia nada. Chico levou porrada. Claudemir levou também. Mas Muriel não. Botaria a boca no trombone se a infeliz da Ruth tocasse em seus longos cabelos de seda. Muriel sempre com os cadernos limpos. Sem orelhas. Sem digitais de dedos sujos.

Tínhamos que nos vingar. Os três. Criei versos jocosos e satíricos a respeito da Ruth que vivia sempre na Avenida Brasil, perto do restaurante do Marçal, num barzinho de uma porta bebendo várias cervejinhas geladas. Alma encharcada de fúria e dor. Não me lembro se alguma vez apareceu de fogo na sala de aula. Aparecia endemoniada. Teria perdido seu grande amor?

Quando leu os versos fixados nas portas dos banheiros masculinos e femininos (tínhamos aliadas mulheres) imediatamente me pegou para bode expiatório.

_Você escreveu isso, não foi?

_Não.

_Mentiroso, você é o fazedor de versos daqui, pensa que eu não sei?

Dez anos e já era um poeta famoso. Os petelecos pareciam uma grande chuva de granizo sobre a minha cabeça. Meus comparsas também receberam sua carga de porrada. Muriel testemunhou tudo. Fiquei três dias sem aparecer na escola. Matei aula e joguei futebol no campinho ao lado da linha férrea. Paraíba, um amigo vindo do estado homônimo de seu apelido, me chamou num canto e me entregou um pedaço de papel. Muriel escrevera uma carta. Sentia saudades. Denunciara Ruth à coordenadora. Que coragem. Dizia que também mudaria de bairro e de escola. O quê!? E eu? Ficaria sem Muriel e à mercê daquela louca? Fui até a escola. Ela não estava lá. Fui até nossa sala. Ela não estava lá.

Procurei pelo nome “Spark” por toda aquela maldita lista telefônica. Sem chance. Ela tinha evaporado como córrego sem mata ciliar.

Fiquei desolado durante todo o restante do ano letivo. A bruxa andava à espreita, esperando um mínimo deslize do futuro Manuel Bandeira. Eu andava mais esperto que preso em cadeia superlotada. Mais desconfiado do que cachorro atravessando rio em canoa.

_Arnaldo, cê não vai acreditar!

Era o Paraíba.

- Cê não vai acreditar!

_Fala, porra!

Tinha nas mãos o endereço de Muriel Spark. Dei-lhe o maior e mais demorado abraço que alguém já havia dado naquele piolhento de olho verde. Rumei diretamente para o terminal e peguei o ônibus em direção ao conjunto Ouro Cola. Desci no endereço que estava anotado no papel que o Paraíba havia me dado. Era uma casinha popular sem muro e com marcas de terra em sua base. Bati palmas. Uma mulher alta e branca como Muriel veio atender. Não estava contente em me ver.

_O que você quer?

_Quero falar com Muriel.

_Ela não tem nada para falar com você.

_Porque ela mesma não me diz isso?

_Ora, seu mal criado!

Ameaçou me golpear com a vassoura que segurava na mão e começou a gritar por um tal de Bernardo. Não fiquei para descobrir se o sujeito era o pai de Muriel ou um irmão mais velho. Eu a vi numa das janelas. Parecia que estava chorando enquanto me acenava um adeus de dentro de sua prisão.

Desci a avenida principal do Ouro Cola num galope de corcel negro e depois sentei na sarjeta. Meu mundo havia se desconectado de todas as órbitas de crença na humanidade. Foi a primeira vez que chorei por uma mulher. Muriel Spark. Ave rara, presa na gaiola familiar das indiferenças eternas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Nelson Alexandre às 10h15
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CONFISSÃO
charles bukowski
tradução: Jorge Wanderley

 


esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.


Escrito por Nelson Alexandre às 12h07
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Joseph Carey Merrick (O Homem Elefante) 



Escrito por Nelson Alexandre às 14h03
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TIPO DAVID LYNCH

 

 

O bife de fígado apodrecia cru em cima da chapa do fogão. Havia algumas cápsulas de omeprazol e alopurinol espalhadas pelo chão da cozinha e as baratas permaneciam quietinhas lá, em seus buracos profundos e enigmáticos.

As formigas picavam o pé do alfabeto, e o alfabeto nem ao menos gritava de dor ou de tristeza.

Não havia motivo para tristeza.

Havia, apenas, motivo para uma inércia voluntária, gerada por anos de espera numa cadeira de rodas. Nesse meio tempo, as têmporas receberiam mais alguns fios brancos de cabelos amaciados por shampoos de marca não barata e de qualidade e preços indiscutíveis.

O nome do cara era João, mas ele vivia dizendo que era John Merrick.

Não havia deformidades no corpo ou no rosto de João, que em dias nublados e de chuvas de canivetes abertos insistia em abrir o seu guarda-chuva de tolices e ser picotado pelas lâminas implacáveis do toró.

João foi até o armário e pegou uma boneca inflável que ele chamava de Laura.

Sentou-a de frente a ele na mesa da cozinha, ajeitando seus cabelos, cobrindo os seios desnudos de plástico, pensando em pedi-la em casamento.

Amor não há?

Olhava pela janela e via que o mundo havia mudado. As reflexões é que permaneciam as mesmas. A conta de telefone. A conta de água. De luz.

Mas João, ou John, pensava mesmo era sobre o paradeiro daqueles que se diziam seus amigos.

“Sou o Homem Elefante.” Pensava.

De vez em quando alguém pagava uma “conectada” para dar uma espiada em seu ciberespaço bizarro que é esta casa de espelhos retorcidos e mal apurados.

“Sou o Homem Elefante.” Pensava.

Admirado de longe e negligenciado de perto.

“Quer se casar comigo?” Perguntava para Laura que, por sua vez, não dizia nem que sim, nem que não.

Quem quer se casar com o Homem Elefante? Só mesmo a ciência. Somente a estreita relação de cientificismo localizada no gume afiado da ponta do bisturi.

João foi até a geladeira e contou as folhas do maço de rúculas e, quando perdeu a conta, emendou um chute na dieta já seguida de forma irregular e desandou até o bar da esquina.

“Cerveja.”

O homem do bar o olhou com certo desvelo, bem diferente dos demais donos de bar onde bebia sua cerveja.

“Se vai se foder, hein? E a dieta?”

“Foda-se.”

“Tá meio quente.”

“Eu também.”

Engoliu uma garrafa e sentiu a mucosa estufar feito o dirigível Nuremberg. Pagou e se mandou.

Novamente em casa, sentou numa cadeira na cozinha. O bife de fígado apodrecia cru em cima da chapa do fogão.

Laura estava novamente acompanhada e parecia querer dizer a João que estava grávida.

“Quer se casar comigo, Laura?”

Não disse nem que sim, nem que não.

Levantou-se e foi até o aparelho de som. Ficou parado, em frente a ele. Antigo. Anos oitenta. Os MP9 da vida riam daquela obsoleta forma de entretenimento sonoro.

“Vou ouvir Blue Velvet.” Pensou.

O som não encobria o cheiro do fígado cru apodrecendo na chapa do fogão.

“Quer dançar, Laura?”

Não respondeu nem que sim, nem que não.

“Sou o Homem Elefante.” Pensou.

Voltou novamente para a geladeira e começou a contar as folhas do maço de almeirão. Quis dar um chute novamente na dieta, quando Laura interveio.

“Eu caso.”

Olhou por um instante a boneca inflável e constatou que suas formas tinham ganhado derme e epiderme, músculos, veias e artérias, lábios e seios de verdade.

“Sou o Homem Elefante.” Disse.

“Sou Laura Palmer.” Respondeu.

No mesmo instante, nos maços de rúcula, agrião e almeirão, brotaram pequenas flores. O vinil, que ecoava notas como se fossem pequenas estrelas de galáxias escondidas, já não chiava mais.

“É uma menina, João.”

“Sou o Homem Elefante.” Disse.

“Tente não ser, como eu tento não ser uma boneca de plástico.” Respondeu.

Dançavam entrelaçados como dois cavalos marinhos, quando as luzes do mundo resolveram se apagar. Dez horas. Toque de recolher.

Lá em cima, do satélite sentinela que vigia o planeta, o programa de segurança detectava o doce vagar das notas de Blue Velvet, sem nunca cogitar o bife de fígado que apodrecia cru em cima da chapa do fogão.



Escrito por Nelson Alexandre às 13h52
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COMO UM CLARÃO

 

A fé invade meu corpo como um rio bravo.

Já não temo a morte desta viagem.

Estou armado de uma esperança que triturou minhas antigas

Interrogações.

Meu verbo agora é livre.

Conduzo meu barco num lago manso,

mas aviso qua ainda não é o fim.

É o começo de algo novo, lindo.

As flechas venenosas atravessaram meu corpo,

mas eu as venci.

Passei pelo inferno particular

e já não o temo.

A noite de amargura se foi,

dou bom dia ao clarão que queima minha pele.

Guardo meu coração dentro de um antigo luto,

que agora canta e explode como enormes

fogos de artifício decorando o céu.

Possuo virtude e uma espada que não é

a arma da morte.

Vou caminhando sobre pedras,

olhando sempre em frente,

conduzindo meus passos para algo gigantesco,

amornando o meu corpo e livrando a minha alma.

As horas maravilhosas da redenção

já não são medidas pelo relógio.

Sou livre como o ar.

 

 



Escrito por Nelson Alexandre às 20h11
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